outubro 16, 2009

Plural de solidão

Eu me sentia a pessoa mais sozinha do planeta, e não faz nem uma semana. Não tinha assunto pra ninguém e não parecia fazer falta, era só uma preguiça imensa de me impor. Não queria fazer esforço nenhum pra existir pro mundo. Pra que me aproximar se fatalmente farei sofrer? Pra que me interessar se sei que não me apaixono? Pra que viver se eu posso ir levando uma vida medíocre, fingindo esquecer o motivo que faz pessoas acordarem todos os dias e tentarem, mais uma vez, achar um complemento?

Se desistir dos outros já é difícil, imagine desistir do mundo e de você, de você no mundo. Desistir de tudo que é pela metade. Sorrisos pela metade, cumprimentos pela metade, vidas pela metade... Se não é inteiro, não me interessa. Acontece que a gente não pode deixar pra trás tudo que não teve tempo de se formar: uma hora isso me deixa pela metade, e eu não quero ser deixada também. Aprendi a falar esse idioma humano, "oi, tudo bem?" sai automaticamente, mesmo quando quero dizer "Você está bem? Por que eu nunca falei com você antes?". Conhecer melhor as pessoas é uma questão de estar aberta pra isso e saber abrir os outros também. É tomar iniciativas, encontrar assunto, e eu tenho que estar disposta a ser alguma coisa de verdade. Não posso desistir assim.

Eu sei que as pessoas são todas esburacadas, mas o que move o mundo é a busca pelo revertério. Elas vão se preenchendo de música, de festa, de comida, de academia, de gente, porque têm fé no que chamam de amor. Nem que seja o amor próprio. Algo que faça brilhar os olhos, que esconda a realidade fria por alguns segundos ou mais. E o que atrai os outros, inconscientemente, é exatamente isso: essas pessoas parecem tão repletas que despertam fascinação e vontade de estar perto. Mesmo que não sejam repletas de verdade, mesmo que também procurem isso no mundo.

Porque sozinho não é só quem acorda de manhã numa casa sem cachorro, trabalha conversando com a planta no vaso que não toma sol e vai dormir depois de ter visto uma ou duas pessoas que nem ao menos lembram seu nome. Sozinho não é só quem vaga chorando pela avenida Maria Monteiro sem ter pra onde ir e sem ter quem pergunte onde pretende chegar. Não é só quem não tem amigos ou família na cidade e viaja todo final de semana em busca de casa.

Tem aquela sozinha que é a misteriosa da firma e troca olhares com meia dúzia de caras, fazendo as mais tímidas questionarem o seu segredo e desejarem seu lugar, mas que chega em casa e só queria um cafuné, uma cama quentinha, um abraço quentinho. E isso olhar de desejo não oferece. Tem o sozinho que passa o dia entretendo o mundo e não tem ninguém pra agradecer, porque é só mais um malabarista de farol que pede moedas e oferece arte e sorrisos, um chato que incomoda conversas apressadas no celular, atrapalha o trânsito. Tem a tia sozinha que se veste de menina e sai com meninos, mas que nunca é levada a sério. E sabe disso. Sabe também que é melhor fingir essa alegria juvenil do que admitir o fracasso de não ter conseguido evitar a própria idade.

Solidão todo mundo sabe o que é, já experimentou pelo menos uma vez na vida. Tem gente que se rende, tem gente que foge. Mas essa menina carente que é a Solidão - grande ironia - não gosta de ficar sozinha. Às vezes ela traz o medo, a angústia, a dor, fazendo parecer terrível sua existência. Fere os mais vulneráveis. E quando a solidão decide ficar sem machucar? E quando você descobre que é sozinho sim, mas isso não é questão de escolha ou castigo? E se isso não for a pior coisa do mundo, como parece? A solidão não é um bicho de sete cabeças, não é necessariamente uma coisa ruim. Talvez eu ficar sozinha seja o melhor pra todo mundo. Enquanto eu sentir isso, permaneço aqui, no papel. Ser só é ótimo para as articulações dos dedos.

A solidão, quando toma conta assim de alguém, quando não dá outras alternativas, passa a ser mais de uma solidão. Tem solidão de gente, de espaço, de vida. Plural de solidão é vazio existencial. Mas eu estou viva, não estou? As pessoas estão todas aí, não estão? Só me falta somar ao invés de substituir e viver ao invés de escrever. Dá licença, vou até ali fazer diferente.

outubro 02, 2009

Palavras?


Você reclama que eu falo demais e não digo nada, que eu tenho medo desse silêncio que você tanto admira.
Minha necessidade não é de falar, é de ser ouvida. Você pode ter meu silêncio, se compreender o que dizem meus olhos.





(100 seguidores? MUITO obrigada!)

setembro 26, 2009

Férias


Estou tirando férias de mim. Férias das dúvidas que me derrubam, das ilusões que me levantam, porque tudo isso é muito temporário. E viver assim de pouquinho, sem nenhuma fixação, às vezes cansa. Esperar cada novo dia, cada novo olhar pra saber se posso ser feliz, não me faz feliz de verdade. Um sorriso e o balanço do dia é positivo, posso dormir à noite. Um cumprimento não correspondido e acho que tudo está errado. Mas se eu fico tão bem quando não dependo de opiniões, ações, gestos, por que insito em deitar nos braços do mundo e me deixar abater?

Não existe ninguém que pode me fazer mais feliz hoje e ter essa consciência muda o humor, muda a disposição, muda as vontades. Sabe o que é? As pessoas não me fazem bem, minha idealização delas me engana por um tempo, mas saio fatalmente mal das relações que eu invento. Então por que não me curtir um pouco - me sentir mais leve, mais bonita, mais interessante, já que o fantasma da obrigação de agradar não está me seguindo? Essa é uma daquelas fases de sorrir e não querer saber o motivo, de férias mesmo. De tudo que eu me cobro todos os outros dias do ano, depois me cobro por não ter tempo de cumprir.

Eu cansei de não me satisfazer comigo, não me guardar pra mim. De estar sempre escorrendo, vazando pelas beiradas. De precisar de opinião alheia por ser tudo ao mesmo tempo e esperar reconhecimento por isso. É tanta coisa aqui dentro, tanta coisa que eu tento melhorar e aprender todos os dias, que eu conto toda minha vida pra quem eu acabo de conhecer e fico chateada quando não me dão o valor que eu penso merecer. Mas ei, qual o problema? Nem todo mundo acha que ler e escrever (além do sentido banal de ler e escrever), é interessante. Nem todo mundo precisa saber que uma clave de sol não é um S, nem um G, e deduzir que eu gosto de música só de olhar pra mim. Não adianta chegar numa festa cheia de barulho e gente e querer conversar, achando que antes do cara sugar um pouquinho da minha alma, deve saber que eu não sou umas dessas mulheres vazias, sem uma alma para ser sugada. Tem mais que vento dentro de mim, mas isso é meu. Não faz diferença eu agir como uma pessoa superficial e querer explicar pra todo mundo que eu não sou. Sempre me arrependo de sair, ir a lugares que não têm nada a ver comigo. Mas eu tenho essa necessidade fútil de ser vista. Quando eu me escondo em casa, me sinto anulada. Preciso da opinião dos outros, de elogios. Quando alguém mostra que se lembrou de mim, adoro. Se diz que sentiu minha falta, tenho mais motivos pra sorrir. Quem precisa saber? Por que é que eu me importo com quem não me conhece?

E hoje não vou fazer isso. Não vou ceder, não vou me preocupar. Vou entrar em férias de mim, balancear os pneus, checar o óleo. Vou me amar. Pra depois tentar, quem sabe, amar alguém.

setembro 07, 2009

Olha, Menino...


Sou de gêmeos. Um signo de ar, mutável. Eu me distraio com tudo e você não imagina a facilidade que eu tenho de viajar sem sair do lugar. Mas nem tudo que nasceu comigo, ficou. Algumas situações amarraram meus pés no chão, fazendo com que eu me agarrasse firmemente à realidade. Paixões platônicas, Lindo, são para crianças. Foi isso que eu repeti silenciosamente, até me convencer. E deu certo. Quando começo a me iludir por alguém, racionalizo tudo: Por que eu me interesso tanto por ele? Por que ele se interessaria por mim? Por que a gente daria certo? E funciona! Esqueço com impressionante rapidez do meu interesse. Ah, as coisas ficam tão mais fáceis desse jeito! Você não sabe, Menino, mas eu machuco as pessoas. Eu faço com que elas se apaixonem por mim como um desafio, como uma criança testando seus limites. Então enjoo do meu jogo e não dou explicações. Destruo corações que se abrem pra mim com tanto esforço, na esperança de terem encontrado alguém legal. Ainda dá pra você fingir que não me viu. Se der tempo, se você tiver o raro dom de controlar seu coração, se o sentimento não estiver suficientemente forte à ponto de você se prender, fuja. Se você nem ao menos me diferencia das outras pessoas que te cercam, como eu imagino, permaneça assim. Não se aproxime, não se apaixone. Não me escolha como a eleita dos seus dias. Escolha uma dessas meninas com perfis de orkut todos iguais, que gostam de msn, que querem ser pedidas em namoro. Essas meninas que choram e sofrem, depois esquecem e ficam submissas. Dessas que conseguem se apaixonar, se apegar, amar. Eu não sou assim. Eu sou fria e jogo com as pessoas - não por maldade, mas porque inconscientemente me envolvo com brincadeiras, que na verdade são vidas de gente que ama e sofre de verdade. É, procure a saída mais próxima e parta de vez para uma relação humana, comum, sólida, eterna na sua duração e cheia de palavras e promessas de carinho. Eu tenho aflição de toque e sou incapaz de jurar amor sem pensar e ter certezas.

Eu tentei racionalizar você. Fiz minha cartilha e decorei minha fala: não tenho motivos para me apaixonar. Mas por que é que eu conseguia falar com todo mundo, menos com você? O que me impedia de ser a excêntrica de sempre? Eu mal conseguia te falar 'oi'! Não é ridículo? Nas minhas férias, deu certo, não lembrava mais o motivo de eu ter me encantado, nem estava com saudades de ficar estática perto de você. Deduzi que você me achava a pessoa mais estranha do mundo, não cumprimentando, sentando ao seu lado no ônibus e só lembrando de respirar na hora de descer no ponto... É, a garota que não fala e não respira! Eu acharia louca, esquizofrênica. Não tiro sua razão, se você achar tudo isso de mim. Pode fugir agora, porque eu tenho um potencial enorme pra te trazer dor.

As férias acabaram, e eu vi você. Ah, como eu queria não ter visto! Como eu queria não ter lembrado da sensação de esquecer do oxigênio! Deletei a frase, mesmo achando impossível deletar alguma coisa da mente como num computador. E alguns dias depois, quando eu criei coragem de me aproximar e conversei com um amigo nosso em comum perto de você, consegui não ser idiota. Você não tem ideia do que é isso, não é? Se soubesse o que eu passo por sempre falar alguma coisa inapropriada quando eu menos quero, acharia linda minha façanha. Eu consegui ser simples, consegui não reclamar de nada, não falei palavrões, nem expus minhas inseguranças. Um desafio vencido. E então você começou a me falar 'oi'. Sabe o que é mais estranho? Eu sentia que você, por algum motivo, desviava o olhar quando eu cumprimentava algum amigo seu por perto. Não fazia contato visual de jeito nenhum, e eu ficava sem graça de te cumprimentar. E agora é você sorri e procura meu olhar, que às vezes desvio sem querer. Talvez você se sentisse assim: com medo de ser engolido, ou de admitir alguma coisa presa. Eu fujo dos seus olhos, mas depois me lembro de como me sentia na situação inversa. 'Oi', 'tchau' ou um sorriso, significando qualquer uma das duas opções anteriores, nossos diálogos não se expandem, mas nossos sorrisos, sim.

E no dia que a gente conversou pela primeira vez, por mais bobo e cotidiano que fosse o assunto, consegui ser natural. Perdi a ordem das pernas ao ir embora, mas você nem ficou sabendo desse detalhe. Foi um diálogo tão importante pra mim e você jamais saberá. Eu guardo pra mim toda a profundidade que eu queria dividir com você. Eu tenho medo de te assustar. Me controlo tanto quando você está perto... Com seus amigos falo besteira, falo demais, brinco. Mas não quero que você me ache vulgar, insana. Olha, Menino, o que eu procuro, é uma coisa estranha que muitas meninas passam pela vida sem conhecer ou sentir falta: compatibilidade. Eu procuro eu mesma nos outros, ou algo parecido. Você tem o que eu procuro e eu sei disso sem nunca termos conversado de verdade. Você gostaria de mim, se me desse espaço para mostrar. Eu sei disso.

Mas hoje, Lindo, é a última vez que eu vou passar horas sofrendo por você. Acabei de decidir, olha só que coisa boa. Porque é verdade, me apaixonei pela primeira vez e não fui correspondida pela primeira vez, mas as pessoas vivem sobrevivendo a esse tipo de coisa. Eu mesma já me levantei dos buracos mais escuros e voltei a caminhar. Se eu estiver enganada e você simplesmente for tímido demais pra sempre aproximar, esse risco fica por sua conta, porque não esperarei mais um sorriso seu pra ir embora. Assim como também não ficarei mais chateada por você não ter se despedido na sexta-feira e eu ter que esperar até segunda pra descobrir se você estava me evitando ou só com pressa. Não odiarei mais as meninas que te cercam e conseguem conversar com você enquanto eu só falo com os outros, tentando chegar perto. Dá pra viver em função de alguém que nem ao menos demonstra preocupação comigo? Não, não dá.

Hoje decidi te esquecer, mas amanhã vou te ver. Ah, esquece esse texto todo. Deixa só eu olhar pra você, sem respirar, sem falar, sem me mover. Acho que esse é o relacionamento mais humano que eu já tive: Só eu sinto, só eu sofro, só eu acho que existe.

agosto 18, 2009

Palco


Minha cabeça é uma peça de teatro. Há personagens, conflitos, algumas cenas marcantes... Às vezes me atrevo a dirigir e tomo controle da situação, escolho protagonizar minha própria história e vivo sem limites. Mas quando as atrizes se revoltam nos bastidores, retomam seus papéis. Deixam-me de lado, se expõem como bem desejam. Cheias de cenas vulgares, dramáticas, ridículas. São meninas cheias de vontades e nem consultam a dona da peça para saber se podem realizar suas teimosias.

Eu confesso: perco o controle, perco a vontade de controlar. Aceito o dia-a-dia e a rotina. Aceito ser movida pela minha mente que já não se conforma mais com as matinês. Todos os dias, todas as horas. Lembro e esqueço que devo ser solta para me impor. Cansei de só ocupar espaço sem existir. Tento me fazer acreditar que meu natural agrada mais do que as personagens, mas na prática a história é outra. Ao invés de surpreender a plateia à cada novo espetáculo, repito as falas decoradas sem improvisar nem uma vírgula. Ensaio sorrisos cheios de significado, mas acabo estática de novo.

Quem vai vencer? Quem é o vilão e quem é o mocinho dessa história? Quem vai se sobressair nessa luta por comando? Eu nunca acreditei em bem contra o mal. Ninguém é muito certo ou muito errado e a essa representação exacerbada chega a me revoltar. Eu não sei se eu devo ganhar essa batalha, não sei se tenho condições, se mereço assumir a direção. Talvez essas meninas medíocres aqui dentro sejam mais eu do que eu mesma. Dá pra entender onde eu quero chegar? Esse meu lado consciente, esse momento de sobriedade não é maioria em mim. Que poder tenho sobre os votos de uma população gigantesca de personalidades, todas unidas contra uma só - contra mim?

Meus segundos de lucidez estão chegando ao fim. A cortina se abre, as conversas e as luzes diminuem. Eu me rendo. Se tudo está errado, assim permanecerá. Se este script não me satisfaz, ninguém mais tem que saber. Mais um dia se passou sem que eu exigisse meus direitos. Habito, mas não comando. Sou inquilina de mim mesma e essa prisão é tudo.

Inside my heart is breaking
My make-up may be flaking
But my smile still stays on
The show must go on

julho 21, 2009

Os complicados


As promessas estão todas aí. Posso escolher aquele que vai me amar incondicionalmente e me colocar num pedestal, que vai tentar encher minha vida de luz e sorrisos e não vai se conformar com minhas meias alegrias. Basta responder um chamado, basta eu dizer sim. Mas tudo que vem fácil, vai difícil. E minhas tentativas de gostar das pessoas já me esgotaram. Não quero começar mais nenhuma relação que eu já conheço o script: eu me encanto, ele se apaixona, eu me esforço pra gostar, ele tenta me conquistar, eu me culpo, ele sofre. Tudo isso gasta energia, me desilude e me deixa cada vez mais fechada. Fico achando que então devo me interessar pelos que não vão gostar de mim logo de cara, porque aí eu é que sofreria e quem sabe assim eu conseguisse me fixar.

E a razão vai tomando conta de mim de novo. Como vou tropeçar se sempre calculo meus passos? Como vou me entregar se sempre calculo meus braços? Eu não vejo mais encanto em ninguém, não me iludo por palavras que teriam tudo pra me agradar.

E eu quero mesmo é o complicado. Aquele que não olha em volta porque tomou o maior pé na bunda da história e não quer mais saber de mulher. Aquele que minha família odiaria e que em pouco tempo eu enjoaria porque não tenho assunto pra falar, mas que na verdade não faço questão que abra a boca pra isso. Eu quero o esquisito. Aquele que não me faz preocupar com concorrência porque eu sou a única que viu e gostou. Que se fecha tanto no seu mundinho que nem percebe minha existência.

E de repente, o complicado se torna fácil. Olhou pra mim, esqueceu a ex, aprendeu a gostar do que eu gosto. Virou só mais um final. Já deu tempo de me apegar, de ficar com medo de terminar. Mas não tem jeito: nessa história toda, a única complicada sou eu.

julho 06, 2009

A falta de alguma coisa que eu não sei o que é

Eu sempre acho que amanhã será o dia de mudar de vez, de me assumir por completo. Mas daí o amanhã chega e tenho uma imensa preguiça de sair da minha área de conforto, porque é bem provável que ninguém entenda. E dá medo encarar o que é definitivo. E porque é mais fácil reclamar da vida do que torná-la leve de sobreviver.

Hoje eu sinto saudade e nem sei do quê. É uma angústia louca, um misto de vontade de chorar e sorriso leve. Eu não sei citar motivos, mas alguma coisa me falta. Estou ao mesmo tempo feliz e deprimida, tenho companhia e nunca fui tão sozinha, tenho sucesso e nuna me senti tão fracassada.

Eu crio mil planos pra mim e boicoto todos eles. A vida é tão cheia de ciclos e fases e eu me agarro doentiamente ao conhecido. Eu evito mudanças drásticas, sabendo que são meus impulsos mais interessantes e busco o conforto da mesmisse. É ridículo, não há surpresas.

Ninguém nunca espera que eu saia dos meus limites. Quem me conhece de verdade? E quem sabe dos momentos que eu estou a ponto de explodir? As saudades são grandes, o telefone mudo. Me identifico com livros e personagens e nem tenho uma história pra contar. E se eu contar, quem vai se importar?

Eu me importo, e muito. Quero marcar mais quem passa por mim, quero perder esse medo de não agradar, essa preocupação em ser o que todos esperam. Tentando não incomodar ninguém eu fico neutra. Invisível. E todas as minhas experiências de falta de preocupação já me indicaram que seria bem melhor me assumir. Eu não sou tímida. Sou calculista.

E essa falta... Na verdade eu sei, mas não queria saber... É falta de mim.

junho 27, 2009

Reflexo

Eu tenho sono e já não posso mais dormir. Eu tenho ânsia, não consigo mais comer. Eu tenho medo e já não quero mais.
Meus pés perderam a função básica de equilibrar meu corpo na minha existência. Não diria que a culpa é física porque fui em quem sobrecarreguei minha mente e me tornei incapaz de responder sobriamente por um "tudo bem?". Isso pesa. É pesado saber que não está nada bem.
Eu percebo no espelho que meu sorriso não chega aos olhos. Eu posso enganar a todos, posso até me enganar. Mas é de noite que eu me revelo como sou: sozinha.

junho 19, 2009

Sobre você ir embora de vez

Vai até a esquina, mas não solta da minha mão. Foge de mim, mas me busca nesse seu abraço tão maior que eu.

Pode cortar meus assuntos, pode ficar vazio de repente. Eu sei que a culpa é só minha. Provoca minhas inseguranças, de tanto que eu já provoquei as suas. Pega meu ponto mais fraco e torce até sair minha última gota de orgulho. Esfrega bem na minha cara o que eu perdi e que logo vai ser de qualquer uma e que eu nunca mais vou ter. O que eu não sei ter.

Mostra que eu mereço ficar com um vácuo bem grande dentro de mim por não saber cuidar de uma coisa tão simples e tão pronta. Você nunca pediu mais do que eu podia dar e eu sempre quis mais, quis menos, sempre quis diferente. Você nunca exigiu nada de mim, só queria minha existência e eu não soube nem existir pra você.

Tem razão, você não tem que responder direito. Afinal, não fui eu quem acabei com toda e qualquer possibilidade de ter você longe da esquina e perto do meu coração? Tá certo, se protege da louca que só quer brincar com sentimentos enquanto não cresce, não tem seus próprios sentimentos.

Tá vendo esse coração podre aqui? Cabe muita solidão, mas o espaço de amor tá esperando um pouquinho pra amadurecer. Ele tem medo de acabar gostando da sensação e descobrir pra que serve de verdade.

Testa todo seu vocabulário monossilábico comigo. Testa meu limite pessoal, minha paciência, minhas paranóias... Eu ainda não posso ser o que você quer de mim. Eu posso ser essa metade que não encaixa, mas sabe falar por horas e completar frases bobinhas.

Você pode esquecer que por um tempo eu fui mais que todas as outras. Só não me deixe morrer em você, porque em mim você vai continuar vivendo. Com seu abraço maior que eu, com suas falas que sempre me deixaram sem ação, gostando mais de mim do que eu sei gostar de alguém. Sendo alguém além do que eu sei ter.

Acaba o texto pra mim. Sua inspiração vem e volta e a minha simplesmente não existe. Não me deixe morrer no papel. Não se afogue na tentativa de me deixar pra trás e não confunda me superar com me apagar. Não me apague nem me mate um pouquinho. Esquece o durante e o depois e refaz esse antes que eu gosto tanto. Eu só quero isso.

Me conquista todo dia, mas não queira me levar no final. Só volte pra folha em branco e caminhe com mais calma.

junho 13, 2009

A íris é o diafragma do olho.


Ele olha, ela devolve o olhar. Ambos sabem a improbabilidade dessa troca de olhares levá-los a algum lugar.
Ele está pensando no significado daquele sorriso tímido, disfarçado entre mechas de cabelo castanho que insistem em esconder o rosto que prendeu sua atenção entre tantos outros.
Ela está pensando em como é boba, e em quantas cantadas já depositou sonhos de amor eterno. Se ao menos fosse real...
Os dois temem a desislusão.
Ele fraqueja em sua confiança e deseja, pela primeira vez, uma só pessoa no mundo. Mas por que ela sequer falaria com ele?
Se ao menos fosse real...
Sem nomes, sem histórias anteriores. Personagens comuns e paixões à primeira vista. O que realmente tem um final feliz fora do papel? A palavra final já tem uma conotação de tristeza nas histórias de amor.
Ela levanta um pouco constrangida, envergonhada da própria existência e caminha em direção ao banheiro. É uma fuga tingida de tédio. Torcendo tanto para o garoto da outra mesa segui-la, torcendo tanto para ser invisível, querendo tanto querer algo possível.
Ele participa de um último comentário com os amigos que zombam uns dos outros e segue a garota com os olhos. Deve levantar ou não? Será que vai parecer um idiota? (todos parecem idiotas em situações românticas). Levanta.

Oi (não me deixe aqui sozinho, não me faça fingir que achei que era uma conhecida, não me faça fugir de você)

Olá (ai meu deus, o que eu faço? Não quero parecer atirada, mas e se você acabar achando que eu sou difícil demais pra insistir?)

Eu vi você lá e... (queria saber seu nome, seus medos, sua vida. Queria te proteger do frio e do mundo, esquecer de tudo com você...)

É, eu... (queria saber seu signo e suas dores, saber o que há além desse garoto comum com amigos bobos e olhos magnéticos, queria largar tudo...)

Você acharia muito estranho se eu dissesse que tudo parou?

Acharia.

Mas tudo parou.

Eu sei.

Então?

Então aqueles olhos, que já se liam durante toda uma noite, finalmente se entenderam. As palavras pareciam tão fracas e inexpressivas diante da comunicação mais profunda que existe, os enlaces faziam tanto sentido... E tudo parou.