outubro 14, 2011

A Terceira Pessoa


Ela não se esquece de deixar claro o quanto é fácil passar por cima de mim. Basta que as luzes se apaguem, o álcool faça efeito, um mínimo de espaço e ela revela sua existência ridícula. Fala demais, essa menina que não tem o que dizer. Ri demais e acha graça de tudo. É muito agradável, e você quer tê-la, mas tem algo de agressivo, algo que te faz sentir mal. Por que ela não fala o nome inteiro? Por que ela some e sai andando entre as pessoas cada vez que você se distrai? Por que falar de astrologia se ninguém acredita mesmo? Por que perder o mistério, se ninguém quer realmente saber sobre sua ideologia barata de gente sem futuro? Sou só um amontoado de ideias perdidas que ela revela sem me pedir licença e depois fica achando bonita minha contradição quando amanhece.

Ela é ótima na arte de acumular pessoas, no sentido da palavra. Não conquista, não agrada, acumula. Chega sozinha, vai embora sozinha, mas gasta um repertório inteiro de palavras e se despede de todos os semi-conhecidos da noite. Alguém vê através disso? Talvez essa busca seja o único motivo pra eu ainda deixar acontecer. Tinha me acostumado a ser cenário e quando ganho personagem, acho pedir demais escolher o que interpretar. Que venha qualquer coisa fútil alegrar meu figurino, que seja brilhante, que seja inesquecível, mesmo que seja feio. Essa menina é mesmo um sopro de qualquer coisa doce e enjoativa com o pior dos venenos, fazendo com que minha presença seja ao mesmo tempo marcante, confusa, passageira e duvidosa. É como conhecer todo mundo e não conhecer ninguém. Pior: é como se todo mundo me conhecesse e ninguém realmente quisesse saber de mim. Só dessa louca que sai por aí sendo tudo ao mesmo tempo e nada, pra finalizar.

Ninguém desconfia do que resta pela manhã e é melhor assim. Uma espécie de proteção, como se essa superficialidade fosse só um ensaio do que um dia vou ter coragem de moldar. E a única dúvida que resta não é qual das duas eu realmente sou, mas qual de nós é realmente importante. E quem vai me restar se eu escolher uma só para viver.

24 comentários:

  1. Esse texto me lembrou uma frase que li hoje: "O que você tem sido enquanto esconde o que verdadeiramente é?" (Camila Heloise). Mais uma vez me descrevendo melhor do que eu, rs. Parabéns Verônica!

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  2. Serve o nascer do sol para dissolver o vazio que amanhece do nosso lado na cama. O mesmo vazio que tentamos preencher com a mesma coisa a terminar igual. Igual porque iguais são tantos e tantas que repetem o mesmo ato, a mesma cena, o mesmo drama, a mesma dúvida. É com o nascer do sol de dentro que a coisa toda muda. Quem sabe...

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  3. Não posso deixar de comentar, o quão divino são seus textos. Maravilhosos!

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  4. Eu me encontrei tanto nesse texto. Chega a ser estranho tamanha semelhança. Lindo.

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  5. "É como conhecer todo mundo e não conhecer ninguém. Pior: é como se todo mundo me conhecesse e ninguém realmente quisesse saber de mim." amei! Tá maravilhoso como sempre. Você me inspira :)

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  6. Mais uma vez a Verônica nos decifra e nos expõe. Adorei o texto!

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  7. Muito bom Vêronica :)

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  8. Impressionante como cada vez mais eu me descubro um pouquinho em suas palavras. Falando um bocado de mim e de uma forma ímpar. Muito lindo, Verônica! Beijos, Bia.

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  9. Seus escritos sempre revelando um pouco de ti e um pouco de nós, leitor@s...impossível não admirar e se identificar com tuas palavras!
    Beijo

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  10. "Pior: é como se todo mundo me conhecesse e ninguém realmente quisesse saber de mim. Só dessa louca que sai por aí sendo tudo ao mesmo tempo e nada, pra finalizar." INCRIVEL sua capacidade de expor sentimentos, me identifico SEMPRE!

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  11. A gente se esconde naquilo que não pode ser.

    Beijo Vê!

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  12. Acabei de descobrir o que eu preciso dizer p uma pessoa. "Sou só um amontoado de ideias perdidas que ela revela sem me pedir licença e depois fica achando bonita minha contradição quando amanhece" Gostei! ;)

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  13. De todos os teus textos, foi esse que eu parecia estar narrando! Maravilhoso!!!

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  14. Verônica, te deixar duas perguntas. Já leu Fiódor Dostoiévski? E se sim, o que achou?

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  15. Mais uma vez um texto maravilhoso.
    Expressando o que não só você, mais muitas pessoas são [ou seria estão?]

    Beijos, parabéns ;*

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  16. Me senti completamente descrita nesse segundo parágrafo. E a verdade é essa: somos todos um que portam mil eus dentro de nós. E no fim das contas acho que isso é bom.
    Texto e ideia sensacionais, parabéns!

    =*

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  17. Sensacional
    Fantástico seu texto
    Me vi em todos os momentos

    PARABÉNS!!!!!!!!!!!

    Bjoos

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  18. Tenho uma vontade boba de um dia acordar e conseguir por para fora o que há dentro de mim, mas só você consegue dizer. Tuas palavras fazem do meu dia algo mais sincero, Vê.

    Beijos e abraços,
    Deyse.

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  19. me encaixei perfeitamente!
    Parabéns Verônica!!!!

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  20. Me lembrou "De onde vem a calma", Los Hermanos.
    Esquizofrenia por necessidade. Rs
    Belíssimo!

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  21. ei, pare de ler meus pensamentos! hahaha

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